12/03/2007

 

 

A CAIXA-PRETA E A BOCA ABERTA

 
(*) Ucho Haddad

 

Muito se discute sobre a capacidade sócio-econômica do Brasil de sediar mega-eventos esportivos, como é o caso da Copa do Mundo e dos Jogos Panamericanos, mas o fato é que um país que desde o seu descobrimento não sai da condição de ser a nação do futuro, nem de longe pode sonhar com tamanha barbárie.

Os nacionalistas ortodoxos, senhores de uma verdade inexiste, defende a realização dos Jogos Panamericanos – que já batem à porta dos brasileiros – tendo como explicação uma promoção internacional do país, a qual não passa de um devaneio desmedido de quem pouco entende do assunto. Qualquer evento, por menor que seja, exige investimentos financeiros, situação que um país subdesenvolvido como o Brasil não pode se dar ao luxo. Em sua rápida passagem pelo Rio de Janeiro, nesta quarta-feira (7/3//2007), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu os R$ 5 bilhões investidos no Pan.

O Pan, ao que parece, tem tudo para se transformar na grande caixa-preta do governo Lula, pois tanto dinheiro sendo investido sob os cuidados de uma cascata administrativa é um convite à ladroagem. A primeira barbárie, que a grande imprensa fez o favor de esquecer, foi a liberação de verbas federais para a construção da chamada Vila do Pan, investimento que recebeu bola preta dos técnicos da Caixa Econômica Federal, agente financeiro do negócio. Mesmo assim, contrariando o parecer técnico, o Palácio do Planalto liberou os recursos.

Por ocasião do planejamento dos Jogos Panamericanos do Rio, o governo Lula Estimou gastar R$ 172,7 milhões, mas até agora a conta do evento, de responsabilidade do contribuinte tupiniquim, já passa de R$ 1,8 bilhão. Ou seja, dez vezes mais do que o previsto. E nesse turbilhão de despesas não é necessário muito esforço do pensamento para entender que a “companheirada” está deitando e rolando no dinheiro do contribuinte. Com tantas denúncias espocando aos quatro cantos, e com o Tribunal de Conta da União condenando os gastos absurdos com o Pan, Lula ainda encontrou motivos para liberar mais R$ 100 milhões para cobrir os gastos do evento esportivo que fará com que Brasil recupere o terreno político na irresponsável brincadeira latina de esquerdização das Américas do Sul e Central.

Você, meu caro leitor, deve estar de boca aberta, mas recomendo fechá-la não apenas por conta das moscas que por aí circulam, mas porque acidentes orofaciais podem sair do Pan na condição de recordistas de medalhas. De chofre, tal assunto pode parecer maluquice de um dentista aloprado, mas o alerta é dado pelo cirurgião buco-maxilo-facial Fábio Guedes, um dos maiores nomes em Odontologia Desportiva do País. De acordo com o cirurgião, que afirma ser este um prognóstico sombrio, de 45% a 50% dos atletas que vão participar dos Jogos Panamericanos, no Rio, correm sérios riscos de sofrer contusões orofaciais de caráter irreversível.

Fábio Guedes conta que é nos esportes de maior risco de contato ou impacto – boxe, judô, karatê, jiu-jitsu, futebol, basquetebol, voleibol e handebol – que ocorrem choques, cabeçadas, cotoveladas, fraturas nasais e até mesmo traumatismos crânio-faciais, situações aparentemente estranhas aos apreciadores dos esportes, mas comuns no universo esportivo. Considerando que o Pan do Rio é um evento megalômano em termos de gastos financeiros, e uma pelada de praia no que tange à organização, não será novidade aos especialistas em odontologia se muitos atletas deixarem a Cidade Maravilhosa com a boca aberta e dores de sobra.

Fábio Guedes alerta para o fato de a organização do evento em nenhum momento ter se preocupado em formar equipes de odontólogos desportivos em condições de possibilitar um atendimento diferenciado aos milhares de atletas que estarão envolvidos na competição, principalmente nos esportes de maior risco de trauma. Traumas originários do esporte já são tratados mundialmente como um capítulo da saúde pública. Segundo o National Youth Sports Fundation, cerca de cinco milhões de dentes são perdidos anualmente em atividades esportivas. Sendo que traumas de face, no mesmo período, mutilam, em média, 250 mil atletas.

Oceanos de dinheiro têm sido investidos – pelo menos é o que a turma de Brasília conta – em programas de assistência odontológica à população de baixa renda, mas beira a sandice imaginar que o comitê organizador dos Jogos Panamericanos sequer se preocupou com detalhe tão importante. Se considerarmos que no Brasil tudo é feito em cima da hora, e que para a roubalheira sempre existe uma explicação derradeira e não convincente, é permitido concluir que pode acontecer de o mascote do Pan, Cauê, ser o único a sair do Rio sorrindo.

Os indignados com a mais nova caixa-preta do governo – e com amadorismo organizacional do Pan também – não têm com o que se preocupar, pois companhia não faltará na hora da boca aberta. E você, meu dileto desdentado, que ainda espera um dentista oficial bater à sua porta, sugiro que dê um pulo no Pan. Quem sabe você não encontra um dente perdido no chão.

Sorria Brasil

(*) Ucho Haddad, 48, é jornalista investigativo, colunista político, cronista esportivo, poeta e escritor. Editor do www.ucho.info, é articulista do site do jornalista esportivo Wanderley Nogueira (www.wanderleynogueira.com.br), do Inforel (www.inforel.org) e da Gazeta do Oeste (http://gazetaoeste.com.br)