08/02/2007

 

:: Espaço Livre

 

A DESIGUALDADE SOCIAL COMEÇA PELA BOCA

 

 

O dado é alarmante: cerca de 30 milhões de brasileiros já não têm mais nenhum dente natural. A recente pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, realizada em parceria com a Organização Mundial de Saúde, revela que o Brasil lidera o ranking de inválidos orais em todo o planeta. O estudo da Fiocruz dá indicador mais grave ainda: a saúde bucal do brasileiro é reveladora da desigualdade social do país. Aponta acesso restrito aos serviços odontológicos pelas camadas de menor poder aquisitivo e revela a existência de prática mutiladora, caracterizada por extrações em massa, imposta pelas entidades públicas responsáveis pelo setor.

Há negligência histórica do poder público com a atenção à saúde bucal. Essencialmente, há forte influência do modelo curativomutilador oferecido pelos serviços odontológicos, caracterizados por uma prática excludente e assistencialista. O problema ganha contornos mais sérios com a propagação da popular dentadura, disseminada, principalmente, como alternativa para a população de baixa renda. São, na verdade, próteses parciais ou totais, que usadas em substituição aos dentes perdidos apoiam-se sobre o “tecido gengival”. Com o impacto do dia-a-dia, acabam provocando perda óssea. Claro que não se defende a manutenção de dentes infectados, em fase terminal, na boca. Mas destaco que extraindo os dentes, resolvemos um problema e criamos outro maior com a conseqüente atrofia óssea bucal.

E essa situação nada tem a ver com a qualidade da odontologia brasileira, reconhecida como uma das melhores por todas as instituições internacionais do setor. Quantitativamente, inclusive. É o país com maior número de cirurgiões-dentistas do planeta – atualmente, cerca de 213 mil profissionais, em todo o território nacional.

Refiro-me à necessidade de políticas públicas que apontem soluções para demanda por assistência odontológica de qualidade. Dentes saudáveis representam muito mais que apenas um sorriso bonito. O mau estado bucal afeta a saúde do corpo em geral – alguns problemas cardíacos e digestivos tem origem nessa área. A mutilação resultante da perda dos dentes predispõe a um estado de doença – assinala mudanças físicas, biológicas e emocionais. Indivíduos desdentados ou usuários de próteses sentem-se em desvantagem em relação aos portadores de dentes naturais.

Assim, entendo que um programa governamental sério de saúde bucal começa com a disseminação de hábitos preventivos desde a infância – as escolas em especial tem papel importante nesse ensinamento. E na ausência parcial ou total de dentes funcionais, a solução mais eficaz é o implante odontológico – próteses fixas, assentadas sobre raízes artificiais, que provocam estímulo necessário ao osso remanescente, impedindo o atrofiamento. Já há métodos de implantes, como o do zigomático, desenvolvido pelo sueco Per-Ingvar Brãnemrk, que torna o custo desse tratamento mais acessível, garantindo, assim, a terceira dentição, que repõe a saúde bucal com o aumento da auto-estima., bem estar e confiança social.

Já existem laboratórios nacionais que produzem os parafusos de titânios usados nos diversos tipos de implantes odontológicos, a preços mais competitivos que os do mercado internacional. Uma parceria governo-iniciativa privada, com subsídios especiais para essas empresas integrantes do projeto, seria uma alternativa para resolver esse grave problema de saúde pública em nosso país.

É com a união de profissionais da área – universidades de odontologia, inclusive– entidades e governo que será dada a resposta para reverter esta triste estatística brasileira, que nos coloca a reboque do mundo no tocante a saúde bucal.

Fábio Guedes é cirurgião Buco-Maxilo-Facial e um dos pioneiros no Brasil em implante do zigomático. Seu e-mail: drfabioguedes@drfabioguedes.odo.br