18/12/2006

 

 

 

A DESIGUALDADE SOCIAL COMEÇA PELA BOCA

 

 

Por Fábio Guedes (*)

O dado é alarmante: cerca de 30 milhões de brasileiros já não têm mais nenhum dente natural. A recente pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, realizada em parceria com a Organização Mundial de Saúde, revela que o Brasil lidera o ranking de inválidos orais em todo o planeta.

O estudo da Fiocruz dá indicador mais grave ainda: a saúde bucal do brasileiro é reveladora da desigualdade social do país. Aponta acesso restrito aos serviços odontológicos pelas camadas de menor poder aquisitivo e revela a existência de prática mutiladora, caracterizada por extrações em massa, imposta pelas entidades públicas responsáveis pelo setor.

Na comparação entre classes sociais, o levantamento indica que, entre os mais pobres, o percentual de brasileiros que já perderam todos os dentes chega a 42,5% - entre os mais ricos, classe média alta ai incluída, é de 3,9%. A Fundação fez a distinção entre classes sociais levando em conta o número de bens de consumo e duráveis - imóveis, carros e eletroeletrônicos, principalmente.

Apesar de ressaltar como positiva a ação do governo em programas como o Brasil Sorridente - o governo federal acena com a possibilidade de investimentos de R$ 1 bilhão no projeto, em 2007 - considero ainda incipiente a preocupação do sistema público com a saúde bucal Essencialmente, há forte influência do modelo curativomutilador oferecido pelos serviços odontológicos, caracterizados por uma prática excludente e assistencialista.

Os que podem financiar os serviços - em todo ou em parte - são priorizados. Percebo a necessidade de maior conscientização sobre a prevenção, principalmente entre as classes de menor poder aquisitivo. Destaco que a perda de dentes - total ou parcial- leva ao início de uma doença conhecida como atrofia óssea maxilar, que provoca um processo de destruição da estrutura bucal. Ela já atinge 70% da população acima de 45 anos - caracteriza, assim, um grave problema de saúde pública no nosso país.

O problema ganha contornos mais sérios com a propagação da popular dentadura, disseminada, principalmente, como alternativa para a população de baixa renda. São, na verdade, próteses parciais ou totais, que usadas em substituição aos dentes perdidos apóiam-se sobre o "tecido gengival". Com o impacto do dia-a-dia, acabam provocando perda óssea. Claro que não se defende a manutenção de dentes infectados, em fase terminal, na boca. Mas destaco que extraindo os dentes, resolvemos um problema e criamos outro maior com a conseqüente atrofia óssea bucal.

A desinformação agrava ainda mais o problema, contribuindo para engrossar a estatística que coloca o Brasil como o lanterninha no quesito da qualidade da saúde bucal em todo o mundo. E essa situação nada tem a ver com a qualidade da odontologia brasileira, reconhecida como uma das melhores por todas as instituições internacionais do setor. Quantitativamente, inclusive. É o país com maior número de cirurgiões-dentistas do planeta - atualmente, há cerca de 213 mil profissionais, em todo o território nacional.

Refiro-me à necessidade de políticas públicas que apontem soluções para a demanda por assistência odontológica de qualidade. Dentes saudáveis representam muito mais que apenas um sorriso bonito. O mau estado bucal afeta a saúde do corpo em geral - alguns problemas cardíacos e digestivos tem origem nessa área. A mutilação resultante da perda dos dentes predispõe a um estado de doença - assinala mudanças físicas, biológicas e emocionais. Indivíduos desdentados ou usuários de próteses sentem-se em desvantagem em relação aos portadores de dentes naturais.

Assim, entendo que um programa governamental sério de saúde bucal começa com a disseminação de hábitos preventivos desde a infância - as escolas, em especial, têm papel importante nesse ensinamento. E na ausência parcial ou total de dentes funcionais, a solução mais eficaz é o implante odontológico - próteses fixas, assentadas sobre raízes artificiais, que provocam estímulo necessário ao osso remanescente, impedindo o atrofiamento. Já há métodos de implantes, como o do zigomático, desenvolvido pelo sueco Per-Ingvar Brãnemrk, que torna o custo desse tratamento mais acessível, garantindo, assim, a terceira dentição, que repõe a saúde bucal com o aumento da auto-estima, bem-estar e confiança social.

Já existem laboratórios nacionais que produzem os parafusos de titânio usados nos diversos tipos de implantes odontológicos, a preços mais competitivos que os do mercado internacional. Uma parceria governo-iniciativa privada, com subsídios especiais para essas empresas integrantes do projeto, seria uma alternativa para resolver esse grave problema de saúde pública em nosso país. É com a união de profissionais da área - universidades de odontologia, inclusive - entidades e governo que será dada a resposta para reverter esta triste estatística brasileira, que nos coloca a reboque do mundo no tocante à saúde bucal.

O Brasil Sorridente pede passagem.

(*) Fábio Guedes, cirurgião Buco Maxilo Facial do Sesi, é um dos pioneiros no Brasil em implante do zigomático. Endereço eletrônico: drfabioguedes@drfabioguedes.odo.br